"No início do ano observei uma alteração no clima da região Nordeste e fiquei desanimado em ir para Patu, achando que poderíamos pegar uma péssima condição de vôo. Esta insegurança aliada à desorganização do calendário do Campeonato Brasileiro nos fez mudar a data de início da Expedição Nordeste por várias vezes. Resolvemos ir com um grupo reduzido de pilotos, para testar os novos Prymus 2 (DHV 1), Eclipse 2 (DHV 2-3) e Dynamic AR-F.
Dia 12 de setembro Eu, Cecéu e Fernando partimos de São Paulo direto para Recife, onde encontramos Dió, que nos levou de carro para o sertão nordestino. Tanto no avião como adentrando ao sertão de carro, observávamos um 'cirrus' imenso cobrindo o céu. Os dias estavam frios e começamos a nos indagar se teria valido a pena a ida. Preparamos os equipamentos e começamos a testá-los e regulá-los. Fazíamos vôos todos os dias, decolando cedo e voando no máximo 110km, até a Serra que separa o Ceará do Rio Grande do Norte. Chegando nela seguíamos, caso a condição valesse a pena, ou pousávamos antes de atravessar a Serra, para facilitar o regate e reduzir o desgaste físico.
As previsões meteorológicas não acertavam uma e cada dia o vento virava radicalmente, ficando lateral à rampa e às vezes até caudal. Foi assim durante uma semana. Dormíamos e acordávamos cedo, comíamos bem, estudávamos as previsões e não participávamos dos eventos da cidade, nos concentrando e preparando para o dia certo. Os dias foram esquentando e no dia 17 Eu e Cecéu resolvemos insistir no vôo, apesar do vento estar soprando para outra rota. Tinha poucas nuvens e a condição estava turbulenta, mas 'bombando' tudo.
Achávamos que a turbulência seria local, porém durou as 8 horas e 20 minutos do vôo. Durante o vôo, tomávamos tanta 'fechada' e 'porrada' que não acreditávamos. O esgotamento físico e mental foi ao limite. Eu e Cecéu ficávamos um olhando para o outro, torcendo para que o outro desistisse para pousarmos, mas como ninguém desistiu fomos até onde deu e quando pousamos não conseguíamos levantar da selete, pois as pernas desequilibravam e tremiam. Cecéu tirou o capacete em vôo, pois seu pescoço não agüentava mais o peso dele. Neste dia voei 300km e o Cecéu fez 302km.
Ficamos 'quebrados' uns três dias e perdemos o dia clássico que apareceu no dia 19, com estradas de nuvens perfeitas e vento na cauda. Marcamos o ciclo e voltamos à rotina de testes e vôos de 100km, durante mais uma semana quando no dia 26, o céu amanheceu azul, sem nuvem ou vento. Subimos desanimados e ficamos enrolando na rampa, quando repentinamente começou uma formação clássica e muito rápida.
Cecéu, que já estava pronto, foi mais rápido e decolou primeiro. Eu me enrolei com minhas máquinas e acabei decolando num 'ventão animal', depois de várias tentativas. Apesar de serem vôos de testes das velas, sempre nos preparávamos para uma possível oportunidade de vôo para recorde. Preenchíamos a ficha de Gol Declarado da FAI, preparávamos a possível rota no GPS, filmes nas máquinas e partíamos. Era o ritual diário.
Lá em cima a visibilidade era ruim, pois estava muito embaçado e não nos víamos em vôo. Começamos forçando por uma rota paralela, para poder sairmos de um açude enorme que influenciava nas formações devido à grande umidade relativa que ele causava na atmosfera local. Perdemos tempo, não conseguimos desviar, acabamos em cima dele e fomos 'para o chão', ou melhor, para a água. Consegui 'ganhar' em cima da água e o Cecéu fez um vôo subaquático, 'tirando' do fundo do açude. Incrível!
Apesar de ter muita umidade no local, as formações desapareceram e pegamos o céu azul por 120km. Nesta parte da rota avistei o Cecéu por duas vezes, uma térmica na frente, mas ele tirou para outra rota e eu segui na que vinha. Entramos numa roubada maior ainda, em uma Serra sem pouso ou acesso para o resgate. Após a Serra, 'fui ao chão' num juremal sem pouso. Se tivesse pousado lá, estaria preso nos espinhos das juremas até hoje. Consegui 'tirar' em um pequeno açude seco, que derivava para o Gol Declarado quando faltavam 58km. Subi até a base e ouvi, pelo rádio, o Cecéu chegando ao seu Gol Declarado de 333 km, na divisa dos municípios de Independência e Crateús. O Recorde Mundial de Gol Declarado havia sido batido!
Nesta altura eu já estava a 23km do meu Gol Declarado, mas fora da formação que vinha. Com vento na cauda e uma altura razoável, decidi arriscar e 'tirei' direto para o Gol. O incrível planeio do Dynamic AR-F me fez chegar ao limite e comecei a entrar na cidade muito baixo. Faltavam ainda 3km para o gol e não podia desistir. Então tomei a decisão de pousar até em um telhado caso fosse preciso, mas bateria o Recorde. Fui entrando cada vez mais, sustentado pelo calor das casas e quando entrei no raio do pilão surgiu um terreno baldio em baixo de mim. Pousei ali mesmo e bati o Recorde Mundial de Gol Declarado, com 355km. Quando olhei para cima vi Cecéu passando 'estampado' sobre minha cabeça, pousando em incríveis 371km, o novo Recorde Sul-Americano de Distância Livre e a maior distância do Mundo em decolagem de montanha.
Voltamos para Patu no dia seguinte, saltitando de alegria após pegarmos as declarações das testemunhas do pouso e fazermos um reconhecimento de outra Serra, que divide o Ceará do Piauí, onde teremos que atravessar para bater os 423km do Recorde Mundial de Distância Livre nos próximos vôos. Porém a condição piorou nos dias seguintes e fomos para a praia voar nas falésias, para finalizar os testes, fazer filmagens e tirar fotos. Por fim, comemos uma lagosta deliciosa para comemorar a quebra do Recorde Mundial.
No próximo ano tem mais!" |