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No dia 20/OUT a equipe formada por alguns dos melhores pilotos do Brasil, apoiados pela SOL Paragliders, partiu rumo à Patu/RN, em busca de recordes e dos maiores vôos já realizados.
O local escolhido para a realização da Expedição NORDESTE 2004 foi fruto de estudos feitos por Fernando Pradi, que também a idealizou e organizou. Dentre os principais aspectos foram levados em consideração a predominância de ventos fortes e o índice de evaporação da região, o que possibilitaria a boa formação de térmicas e altas médias de velocidade, condições favoráveis para a realização de vôos longos.
Após as tentativas realizadas durante os 25 dias em que os pilotos permaneceram em Patu, vários objetivos foram alcançados, entre eles as quebras de dois Recordes Mundiais, dois Sul-Americanos e dois Brasileiros.
Cecéu Prieto, integrante da equipe, conta que as maiores dificuldades que os pilotos enfrentaram foram as condições extremas de vôo e o calor escaldante do sertão nordestino, que faziam com que os participantes desidratassem rapidamente, ocasionando algumas insolações. A alimentação precária além do difícil resgate que diariamente os pilotos eram obrigados a enfrentar, dificultavam o retorno à base, em uma dura rotina.
Apesar de todas essas dificuldades, os pilotos estavam determinados a se superarem, dando o melhor de si em busca dos objetivos da Expedição NORDESTE 2004, sendo que este pensamento e determinação fizeram com que todas as dificuldades servissem apenas para valorizar ainda mais as conquistas. Segue abaixo um relato de Cecéu sobre a quebra do Recorde Mundial de Distância Declarada:
Durante a expedição NORDESTE 2004 os dias começavam cedo. Logo às 6h já estávamos acordando para tomar café e depois partir para o local de decolagem. Após todo o processo de arrumação e checagem dos equipamentos, estávamos prontos para decolar perto das 8:30h. Então aguardávamos o momento certo, em que as condições de vôo estivessem suficientemente boas para começar o vôo.
O momento da decolagem é, sem dúvida, o mais crítico, difícil e desgastante do vôo, pois neste momento precisávamos escolher a hora exata e, na maioria das vezes, o vento forte (de 30 a 60 km/h) não deixava margens para erros.
Superada a decolagem, precisávamos de concentração total para conseguir manter-se voando durante as primeiras horas, já que as condições estavam começando a amadurecer e as térmicas eram mais fracas e menos constantes. Neste período qualquer vacilo terminaria com o piloto em apuros, pousando no meio da caatinga e a poucos quilômetros da decolagem, mas muitas vezes em lugares de difícil resgate.
Passando a fase inicial, o mais importante era otimizar a velocidade e manter-se voando durante o resto do dia, hidratando-se, ingerindo barras de cereais e proteínas, para amenizar a fadiga e evitar que a desconcentração causada pela fome e pelo cansaço prejudicassem o vôo.
Também era de suma importância estar sempre em contato com o resgate, que nos acompanhava por terra. A cada meia hora passávamos nossas posições através do rádio, para que o resgate conseguisse nos acompanhar e nos resgatar onde quer que a gente pousasse. A missão muitas vezes era bem difícil, pois as estradas são precárias e descontínuas, obrigando o pessoal do regate a rodar quase 1.000km por dia. Por este motivo, após um vôo longo, só conseguíamos retornar de madrugada para a casa, em Patu.
Após varias tentativas e bons vôos, a condição meteorológica ficou ideal e o vento começou a soprar mais forte. Com essas condições de vôo os pilotos Márcio Pinto e Cristiano Ricci conseguiram realizar o melhor vôo até então, ultrapassando juntos a barreira dos 300km e quebrando o Recorde Mundial de Distância Declarada pela primeira vez. Voaram 305km (declarado), mas chegaram a 339km neste mesmo vôo, quebrando também o Recorde Sul-Americano de Distância Livre.
Neste dia, devido a alguns problemas técnicos e a falta de concentração, pousei cedo, o que de certa forma foi até bom, pois consegui descansar e me preparar melhor para o dia seguinte que prometia ...
O dia do recorde começou com um vento assustador e antes mesmo de chegar na rampa de decolagem eu já sabia que, se conseguisse decolar, seria o Dia D. Ao chegar na rampa o céu estava ficando cada vez mais bonito e a condição melhorava a cada instante, o que confirmava nossas expectativas.
Após encarar alguns minutos, que pareciam horas, esperando o vendaval dar uma trégua e convencer a minha mente de que aquilo não seria um suicídio, decolei. Como já esperava, foi uma das decolagens mais adrenantes que já realizei. Com um pouco de sorte e perícia escapei ileso.
O Fernando, também de Synergy 2 e Ceará, de Dynamic AR, que haviam decolado alguns minutos antes de mim, conseguiram pegar uma ótima térmica em frente à decolagem e seguiram voando rumo à rota estabelecida. Decolei em seguida mas não consegui pegar a térmica, acabei ficando baixo e fui obrigado a jogar para a direita, pois precisava me afastar da cordilheira. A esta altura, com o vento soprando mais forte e eu não estava mais conseguindo voar para frente. Chegando ao final da cordilheira não consegui escapar, fui jogado para o rotor dela e nessa hora dei graças a Deus por estar voando de Synergy 2!
Procurando me afastar da área de turbulência, segui com vento de cauda até encontrar alguma ascendência. Ao encontrar algumas bolhas que estavam começando a se desprender, procurei me segurar ao máximo e segui derivando com elas por quase 20km, voando realmente muito baixo.
Sempre que aproava minha vela para o vento, voava para trás (de ré) aproximadamente uns 10km/h. Minutos mais tarde encontrei uma térmica mais consistente, ganhei altura e saí do sufoco. Tratei de relaxar e concentrar-me no objetivo. A partir deste momento o vôo se tornou um passeio. Voei durante nove horas, aproveitando a potência das térmicas para acelerar, passando por cima de lugares incríveis e inóspitos, e, apesar de enfrentar regiões com turbulência forte, voei extremamente relaxado. Tudo graças ao Synergy 2, que se mostrou um parapente muito seguro e estável.
Isto possibilitou que eu direcionasse minha atenção exclusivamente para a análise da condição de vôo e escolhesse a melhor rota a seguir. Pulando de térmica em térmica as horas foram se passando e eu consegui me manter voando até o final do dia, podendo concretizar meu objetivo que era cruzar a cidade de Independência, no Ceará, local que havia declarado antes de decolar. Com isto, quebrei o Recorde Mundial de Distância Declarada e realizei o maior vôo feito por um parapente da categoria DHV 2.
Como presente pude apreciar um inesquecível pôr-do-sol ainda voando e, após ter desfrutado um dia inteiro e percorrido 320km, vi o carro do resgate me esperando na rodovia, fechando com chave de ouro o feito, com muita comemoração. Realmente foi um dia inesquecível e muito especial!.
Após a realização deste vôo, Cecéu conseguiu quebrar os Recordes Brasileiro e Sul Americano de Distância Livre, voando 348km com um Dynamic AR. Para realizar a comprovação do vôo e a homologação do recorde Cecéu utilizou duas câmaras (uma analógica e outra digital), que documentaram todas as etapas do vôo; o Track Log do vôo (trajeto percorrido durante o vôo, marcado pelo GPS) e o Barograma do vôo (gráfico que mostra a altitude x tempo). Além destes equipamentos, também foram enviados para a FAI (Federação Aeronáutica Internacional) os formulários necessários sobre o vôo, contendo as informações, testemunhas e assinatura do fiscal da FAI no Brasil.
A busca de recordes é a busca pelo dia perfeito. Vento alinhado e forte o dia todo, com térmicas fortes e constantes, além de tomadas de decisões certeiras do inicio ao final do vôo. Você precisa estar no local certo, na hora certa e extremamente concentrado. Só assim é possível superar os limites e chegar aonde ninguém chegou, afirma Cecéu. |